domingo, 5 de dezembro de 2010

FREUD & JUNG

      As divergências teóricas entre os dois principais pensadores do movimento analítico, Freud e Jung, surgiram desde os primórdios como nos aponta Pinto (2007), argumentando que na obra de Jung Psicologia da Demência Precoce o autor já compartilhava de outras opiniões quanto à etiologia das neuroses, não havendo acordo quanto à total causa de cunho sexual, divergindo desde já, com a opinião freudiana Observa ainda a inclinação do suíço em recorrer às toxinas, omitindo o fator sexual presente nas afecções. Freud, ao contrário, se serve da sexualidade, embora até aquele momento não tenha chegado a uma conclusão”. Desta maneira a autora salienta em seu artigo que as diferenças sempre existiram entre os teóricos supra citados e que houve certa parcimônia por parte de Freud.

A GAROTA IDEAL

O filme A garota ideal aborda questões muito importantes para a prática do psicólogo, principalmente aos que se dedicam à área de compreensão do que é o Pathos e seus destinos infinitos, dentre eles, o de Hybris. Aproveitando o ensejo freudiano no qual a arte nos dá a possibilidade de experimentarmos “o como se fosse real”, julgo o conteúdo desse filme de extrema importância como um meio suficientemente bom de baliza da prática psicoterapêutica, permitindo a discussão dos modos possíveis de atuação profissional, assim como, a atitude da família e a importância do social como uma rede consistente de inserção e apoio do humano em adoecimento.
   O filme narra sobre um homem (Lars) com, aproximadamente, 28 anos que vive numa cidade pequena nos Estados Unidos e possui uma vida solitária. Habita na casinha dos fundos da residência do irmão mais velho (Gus), que é casado com Karin, e aguardam um bebê. Durante o começo do filme fica-nos claro o comportamento de extrema timidez do Lars, a incapacidade de se socializar, suas estratégias para que ninguém toque o seu corpo, seu embotamento afetivo entre outros comportamentos que provocam uma certa estranheza às pessoas,  mas que ficam apenas como uma fantasia distante de que algo pudesse estar errado, como suspeitava  sua cunhada  Karin - “será que tudo está bem com Lars? Ele é tão distante e estranho”.  
  Este se envolve com uma garota estrangeira, com formação cristã, tímida, prestativa, bonita, que ele recebe em sua casa depois de tê-la conhecido pela internet. Enredo ideal para uma história de amor, salvo se Bianca não fosse uma boneca inflável adquirida por meio de um site pornô que possuía como slogan a possibilidade de construção de sua mulher ideal. Destarte, o filme se desenrola com Lars apresentando Bianca ao irmão e cunhada que estupefatos argumentam: “Isso é normal? Meu irmão está louco e agora vou ter que cuidar dele? Será que ele tem jeito? Porra, terei que pagar sua internação”. No transcorrer do filme percebe-se que Lars possui sintoma de delírio, visto a convicção anímica de realidade atribuída a Bianca como se real o fosse.
  O mais interessante que me mobilizou a escrever sobre a importância deste filme é que as pessoas não medicalizaram Lars ou atribuíram sentido aos seus Delírios à parte dele, mas sim com ele. Permitindo a possibilidade de que Bianca vivesse como se fosse real e por meio da interação idealizada por Lars ficava claro a relação de identificação que ele estabelecera com sua namorada ideal, perceptível, por meio, de características em comum, tais quais: gostos, condutas, medos, expectativas etc. Sendo este material explorado pela psicóloga que maneja a transferência de maneira ideal trabalhando com a semiologia simbólica, na qual se preocupa entender o paciente como o sintoma, fortalecendo o vínculo terapêutico de confiança no qual o protagonista vai desabafando suas queixas sobre Bianca, mas que na verdade diz a respeito do seu próprio modo de ser, dos seus medos, traumas e inseguranças, fornecendo a chave de abertura para a porta que encerra seus conflitos. Diante da dualidade mundo real e realismo psíquico, é permitido a Lars que ele organize suas pulsões e se reinsira no mundo compartilhado com as pessoas, sendo o delírio uma tentativa bem sucedida de inserção na realidade.
  O filme de maneira muito sensível aborda a psicopatologia da vida cotidiana mostrando as manias, fobias e comportamentos inadequados dos ditos normais, qualitativamente similares aos de Lars, mas que se diferem quantitativamente, corroborando com o argumento de que o adoecimento é muito mais um quantum, uma noção do metrun ou da boa medida, do que uma loucura ou desvio bem demarcado, fazendo-nos refletir sobre os diversos conceitos de normalidade, fugindo do modelo sindrômico médico e compactuando com a idéia de que não há um fosso entre o normal e o anormal. Sendo de fundamental importância o surgimento de uma fenomenologia do sofrimento, esta justificando como nos argumenta Francisco Martins uma clínica que qualifique o paciente enquanto portador de saber para resolução do seu sofrimento, uma clínica do psíquico.

REFERÊNCIA:
FREUD, Sigmund. A psicopatologia da vida cotidiana. (1901). Edição Standart Brasileira, Vol. VI, Rio de Janeiro: Imago.
MARTINS, Francisco. Psicopathologia I, Prolegômenos. Belo Horizonte: Editora Pucminas, 2005. 

A DONA DA HISTÓRIA


       O filme traz a história de um casal que está faz trinta e dois anos junto e que atravessa uma crise na idade adulta avançada, cujas reflexões e questionamentos estão vindo à tona, e os desejos precisam ser resignificados e o luto de alguns deles pede o ritual necessário. O filme aborda inicialmente, a venda do apartamento no qual viveram todos esses anos e que durante as visitas dos futuros compradores alguns questionamentos são expostos, tipo: o que ele significa para cada um, qual é o tamanho dele, possui uma boa energia? Por que estão vendendo-o? E diante desses questionamentos surgem grandes divergências. Fazendo-se necessária uma maior reflexão, e exaustivamente, o casal vê-se numa teia cujos sonhos, ideais e vontades de cada um manifestam-se de maneira imperativa, pondo em xeque a relação.
       A personagem principal, Carolina sofre - segundo Erikson nos traz com o conceito de crise de identidade - uma necessidade em sua dimensão individual na qual se torna fundamental ao desenvolvimento de sua personalidade a capacidade de integração da sua experiência, sendo um momento extremamente confuso no qual ela oscila entre duas polaridades, prevalecendo durante todo o filme, na negativa. Em contrapartida existe Luis Claudio, o marido cujo comportamento se mantém na polaridade positiva, sempre trazendo soluções para os questionamentos de Carolina, esta trazendo em seu discurso o desespero trazido pela temporalidade e inexorabilidade deste em seus desígnios. Aquele, argumentando que o tempo leva uma porção de coisas, mas traz outras, tendo coisas que só ele traz.  O filme se apresenta na estrutura de flashback. Sendo ideal para o desenrolar do enredo.
       Carolina se questiona sobre o sentido de sua vida, sobre seus sonhos, sobre seu ninho vazio. Metáfora ideal para expressar o momento cujos filhos estão criados e saem de casa para alçarem vôos próprios, sendo inevitável a convivência com o parceiro, já que só sobrou este. Em face dessa necessidade ela se indaga sobre seus reais sentimentos, sonhos e desejos, que na função mãe-esposa ficaram para trás em troca deste papel que ela exerceu com maestria. Durante o filme as frases de Carolina explicitam bem essa dúvida, pois ao encontrar consigo mesma há trinta anos pergunta: Mas é só isso? Minha vida se transformará nisto? Não serei uma estrela? A vida não é um filme? Pela primeira vez ela se percebe como total ser em aberto, todas as possibilidades de ser o inesperado, de perceber que todas suas decisões poderiam ser diferentes e que existe por meio, de novas escolhas, a possibilidade de viver outras histórias. Sendo o Luís Claudio seu interlocutor, cuja realidade de seus argumentos e a lembrança do seu amor, fazem-na mergulhar ainda mais fundo na busca de uma nova vida.
       O filme vai ficando mais interessante ao decorrer de sua história, pois alusivamente ao título, este concebe à personagem o direito de permitir o experimentar de todas as possibilidades, trazendo ideal criada por Heidegger de Dasein, esta sendo a angústia máxima dos humanos cujas escolhas sempre significam potencial e morte. Pois a cada escolha você se permite um destino, mas nega-se a uma infinidade de outros, sendo o conviver com essa angústia o grande cerne da bipolaridade Generatividade versus Estagnação, na qual a personagem faz, inevitavelmente, a indagação: minha vida valeu à pena? Fora o que eu desejava que fosse? Diante, destes questionamentos a personagem decide tentar um novo rumo a sua prosa, tomando a decisão de separar-se e buscar uma vida que ela julgasse ser dela, na qual tomaria as decisões que lhe conviesse e não apenas as atitudes adequadas à realidade do grupo.
       O filme nos proporciona um material fantástico à reflexão porque ele enseja uma realidade da meia idade cujo ser já possui um certo amadurecimento biológico, psíquico e social, sendo um retrato do homem histórico, criado e criador de sua realidade é capaz de por em desvalia toda a sua história. No entanto, narra o sofrimento em tempo ficcional para que as questões como: envelhecerei assim? Eu esqueci como eu era tola na sua idade? Mas será que não valeu à pena? Tornem-se tão reais que a vida construída é posta em dúvidas, obrigando Carolina a buscar em qual caminho o seu desejo se perdeu. Diante dessa necessidade ela mergulha em suas lembranças e recai numa dissonância cognitiva, cujo seu amor por Luis Claudio é o foco. Diante desta realidade que se reconstrói e se resignifica é-lhe facultado o escolher consciente de sua realidade, quase que de maneira similar a um processo terapêutico no qual a desconstrução e remodelagem é proporcionada por uma vivência subjetiva que permite uma decisão consciente, congruente como diria Carl Rogers, sendo ela a possível autora de sua história, capaz de tornar-se consciente das demandas dos seus desejos e ativa no seu processo de tornar-se pessoa. De maneira peculiar o filme descreve este crescimento e o salto para o que Erikson chamaria de modelagem, maneira pela qual o Eu ou Self de Carolina organizará a experiência congregando à continuidade da experiência trazida por esse desafio.
       Por fim, Carolina diante de sua saga por sua vida, espreita seus sentimentos e decide por viver a sua vida já manifesta, percebendo que a possibilidade de significação não implica um voltar atrás, mas um tornar presente outra concepção, outro significante, sendo a maturidade da personagem a moeda de pagamento do barqueiro do Hades. Possibilitando ao casal a capacidade de escrever novo final, mais consciente e coerente com seus desejos.          

INCONSCIENTE

Segundo a psicanálise o Inconsciente é uma instância psíquica especial na qual todo o organismo humano se constitui a partir dela, esta contendo as pulsões ou o material, o substrato psíquico para a constituição do sujeito, como o criador do método aludiu a um caos ou uma caldeira cheia de pulsões em ebulição. Segundo o conceito de inconsciente de Freud ele é visto de três formas: descritivo, sistemático e dinâmico. O descritivo seria, segundo Caropreso (2008) “para designar um fato psíquico que, mesmo não estando presente na consciência ou não sendo percebido conscientemente, continue presente na vida mental. Esse é o sentido mais geral que pode ser atribuído ao termo 'inconsciente', e ele pode ser legitimamente utilizado desde que se admita que, na ausência da consciência, as representações podem preservar a sua condição de fatos psíquicos”.  Quanto ao sistemático ele era o característica mais importante para o fundador da psicanálise, pois este explicitava o modo de ser, ou melhor, o modo de operar com o inconsciente e a forma mais adequada de acessá-lo, sendo este modo o vulgo “retorno do recalcado”. O terceiro inconsciente ou qualidade, é o dinâmico, “o termo 'inconsciente' designaria pensamentos e representações que, apesar de sua intensidade e de sua capacidade de ação eficiente, permaneceriam afastados da consciência, insuscetíveis de se tornarem conscientes” como nos auxilia Caropreso (2008).
Destarte percebe-se que o inconsciente freudiano existe sob a égide de um sistema ímpar, no qual há pistas para acessá-lo e cujo efeito de suas conseqüências reverbera por todo o organismo humano, psíquico e somático. Até aqui não há grande diferença entre este conceito de Inconsciente e o de Jung, no entanto a principal diferença é quanto à qualidade coletiva que este autor designa ao material da psique, como nos auxilia Silveira (1997) “corresponde às camadas mais profundas do inconsciente, aos fundamentos estruturais da psique coletiva a todos os homens”. Desta forma, percebe-se um compartilhamento de impressões coletivas que não existe na obra de Freud, sendo os símbolos a matéria prima de trabalho de Jung para provar o compartilhamento do que ele chamou de arquétipo. Segundo a autora Silveira(1997):
Do mesmo modo que o corpo humano apresenta uma anatomia comum, sempre a mesma, apesar de todas as diferenças raciais, assim também a psique possui um substrato comum. Chamei a esse substrato inconsciente coletivo. Na qualidade de herança comum transcende todas as diferenças de cultura e de atitudes conscientes, e não consiste meramente em conteúdos capazes de se tornarem conscientes, mas em disposições latentes para reações idênticas.
Desta forma fica clara a diferença entre a noção de inconsciente entre os autores Freud e Jung, sendo que para este último o material constituinte do inconsciente é rica em história, não apenas um material libidinal sob a égide da pulsão sexual e seus desdobramentos.


Referências
CAROPRESO, Fátima e SIMANKE Richard. Uma reconstituição da estratégia freudiana para a justificação do inconsciente. Ágora (Rio J.) v.11 n.1 Rio de Janeiro jan./jun. 2008; e
SILVEIRA, Nise. Jung: vida e obra – 16’ ed.rev.- Rio de Janeiro:Paz e Terra, 1997.

Comunicação

as teorias mentalistas definem a comunicação, que é composta pela fala e a linguagem, verbal e não verbal, de acordo com Baum (1994) “sendo coisas separadas e diferentes de outros comportamentos”, usando este comportamento como argumento principal que nos diferenciaria de todas as outras espécies. Enquanto que os analistas do comportamento acentuam a semelhança da fala com outros tipos de comportamento. Os mentalistas explicam a comunicação como algo que se dá, existi interiormente, como uma capacidade interna, um instrumento que existe dentro do sujeito e que ele recorre a ela quando é necessário e que é algo que comunga a um terceiro. Não entendendo o comportamento verbal como mais um comportamento operante, cuja sua existência deve à modelagem e reforçamento pelas conseguências. Sendo mais um comportamento humano e não uma propriedade, ou habilidade interna ou uma aquisição, mas sim, uma capacidade de emitir tais comportamentos em face de estímulos.  Essas aferições geram diferentes implicações aos psicólogos, pois estes que ao compartilharem do pressuposto epistemológico da análise do comportamento enxergará o complexo comportamento verbal por um mosaico de variáveis, sendo mister um cuidado especial às diversas contigências que compuseram aquele comportamento, tanto ambiental, quanto fisiológico, quanto ontológico, pois este comportamento é fruto de uma história cultural. Desta forma, encarará o comportamento por uma análise de todas as variáveis possíveis, enquanto que o mentalista tende a super estimar o interno, e atribuir a fatos e eventos inobserváveis e impossíveis de mensuração e compartilhamento, sendo inviável, em muitos momentos ao trabalho de psicólogo. Não dá para trabalharmos com afirmações do tipo Joana fala muito, pois tem gêmeos em Mercúrio, ou ainda, Joana fala muito pois tem fixação na fase oral. Mas sim, tentarmos entender na história desse sujeito, como este comportamento fora reforçado.

Comportamento Verbal

1. uma unidade estrutural é o conceito que compreende um evento e o define como único, por exemplo, segundo Baum (1994) pode-se afirmar que cada evento tem uma estrutura única pois “um rato provavelmente não conseguirá pressionar uma barra duas vezes do mesmo jeito, usando exatamente os mesmos músculos na mesma exata medida”. Da mesma forma que qualquer outro comportamento, seja o pressionar de uma barra a um comportamento verbal possui uma estrutura ímpar, pois o sujeito nunca é capaz de emitir o mesmo comportamento. Enquanto a unidade funcional para Baum é um ato unitário, uma parte de uma unidade ampliada de ação, que pode ocorrer de diferentes formas, mas todas as variações poderiam ser consideradas membros da mesma categoria funcional. Quando se trabalha com esse conceito de unidades funcionais perde-se a particularidade, ou seja, deixa-se de observar a estrutura particular de cada comportamento e compreender o modo como foi feito para entender apenas a mudança ambiental, a conseguência reforçadora em si do comportamento, por exemplo: Ana pedir o sal para Rafael, caso seja visto como uma unidade funcional, será analisado apenas a situação anterior ao pedido e a conseguência reforçadora, pois provavelmente Rafael lhe passará o sal. No entanto se analisarmos segundo as unidades estruturais, será mais importante ao trabalho do observador, pois a maneira como é emitido o comportamento diz muito ao psicólogo.
Pensemos de que maneira analisar de forma estrutural a situação é vantajosa para o psicólogo, e não apenas funcionalmente. Como nos alerta Teixeira e colaboradores( 2008) “De acordo com Baum (1999), o controle do estímulo no comportamento verbal estabelece que a palavra por si só não deva constituir uma unidade funcional porque uma mesma palavra pode servir a diferentes funções, dependendo do contexto em que ela é emitida ou reforçada”. Pois a palavra em si tem várias assepsias, sendo necessário compreender a função ou o sentido, de acordo com as contingências nas quais a palavra fora usada. No entanto, nos é extremamente importante, enquanto psicólogos, sabermos de que maneira, ou melhor, de que forma estrutural se deu o comportamento, pois nos é condição elementar sabermos se Ana ao pedir o sal para Rafael emitiu o comportamento vocal em altura muito alta ou sussurrando, se pediu enquanto emitia o comportamento de chorar etc. Destarte é necessário a dupla compreensão para o psicólogo. Não lhe é facultado ignorar uma nem outra.